O Fracassado




Há três longos anos, Alfredo estava naquela cama. Um doença terrível tomara conta do seu organismo debilitado. Fui visitá-lo, pois era um dos poucos amigos que lhe restaram.

O quartinho frio e acanhado mostrava a pobreza de que meu amigo estava possuído. Ao entrar, ele me olhou com aquele olhar de alegria e de tristeza. Alegria por me ver e tristeza pelo seu estado precário. Fora ele um grande industrial.

A família, por motivo de desavenças saíra de seu convívio. Tinha três filhos moços, mas não quiseram ficar em suas indústrias. A esposa, também moça rica, se desencantara com o casamento e saiu de sua vida assim como entrara.

Dera tudo de bom a eles, mas nao adiantara nada. Cada qual queria viver a sua vida de sua maneira e houve rompimento. Sempre juntos, pois nossas famílias eram muito amigas, fui vendo desmoronar todo aquele patrimônio, adquirido com tanto sacrifícios.

Fora, aos poucos, entregando seus haveres a credores e ficou reduzido à miséria. Ali estava, no final de seus dias e nenhum dos filhos tivera misericórdia de visitar o pai, ou saber se ele necessitava de algo.

Sentei perto de sua cama e, carinhosamente, arrumei os cobertores, pois ele sentia muito frio. Havia lhe trazido algumas frutas e ele mal olhou para elas. Pensei: "Alfredo está mesmo mal" e lhe perguntei:
- Você gostaria de me dizer alguma coisa?

- Celso, meu bom e leal amigo, gostaria sim, apenas por alguns momentos tornar a ver meus filhos.

- Vou fazer o possível, mas fique ciente de que é uma coisa impossível que você me pede.

- Tente, quem sabe?

Fui até a residência de Hortência, que já havia constituído outra família. Éramos bons amigos, por isso ela me recebeu amavelmente.

- Que bons ventos o trazem? Pensávamos em lhe fazer uma visita no final de semana.

- Bem, Hortênsia, vim numa missão desagradável. Alfredo acha-se muito mal, creio que ele tem poucos dias de vida. Quer muito ver os filhos; como último pedido, devíamos atendê-lo.

Hortência não demonstrou o seu desagrado, mas disse:
- Se eles quiserem, não me oponho.

Os filhos, consultados, ficaram indecisos. Virando para eles disse:
- O que seu pai lhes fez de mal? Foi pai e amigo e vocês o deixaram à parte. Deu de tudo para vocês e, agora, que ele está na miséria, querem deixá-lo, como deixaram durante todos esses anos, sem uma visita na hora de sua morte?

Todos me olharam surpresos. Sempre fora para eles um amigo para suas confidências. O mais novo tomou a palavra:
- Se meus irmãos nao quiserem ir, irei sozinho.

Os outros concordaram e fomos até o quartinho de Alfredo. Com que alegria recebeu os filhos! Com os olhos rasos de lágrimas, ainda pôde dizer:
- Meus filhos, como amo e amei vocês, obrigado.

Fechou os olhos mansamente, despedindo-se da terra. Os filhos saíram e, compadecidos daquele pai, fizeram um enterro digno daquele homem, que soubera amar mesmo de longe os filhos que Deus lhe dera.

Ainda hoje, quando nos encontramos, ele sempre me agradece pelo bem que lhe fiz, levando os filhos para vê-lo.

(Espírito Celso)