Justiça e Misericórdia



Sara preocupava-se com o marido.

Desde que rotineiro exame revelara persistente elevação de sua pressão arterial, empenhava-se em deixá-la informada de seus negócios e compromissos.
- Isso é mau agouro, Joel. Não gosto quando você fala assim...

- Sejamos realistas, meu bem. Viver é um risco. Todos estamos sujeitos a desencarnar repentinamente.

- Minha realidade é você. Sem sua companhia a existência será um pesadelo!

- Adorável poetisa! Amo-a muito! Não obstante, devemos estar sempre preparados para eventual convocação do Além, evitando deixar "nós" para os que ficam.

- Você nunca foi de dar "nós". Pelo contrário, o que mais faz é ajudar as pessoas a desatá-los.

- De qualquer forma é importante tomar conhecimento do que diz respeito aos nossos compromissos. Saiba, também, que se eu desencarnar, há um bom seguro e um fundo de pensão que lhe garantirão o necessário para cuidar de nossos três filhos...

- Que precisam muito de você, particularmente o Celsinho com suas limitações mentais.

- Fique tranquila. Não pretendo partir no verdor de meus trinta e nove anos mesmo porque há muito trabalho na seara espírita. Nossa cidade precisa de gente com mangas arregaçadas e disposição é o que não me falta.

- Isso até me tranquiliza. Penso que nossos amigos espirituais terão o máximo empenho em preservar sua saúde. Afinal, será difícil encontrar outro Joel.

Sara tinha razão. Se a duração da jornada humana pudesse ser condicionada à utilidade, Joel chegaria facilmente aos cem anos. Era um dínamo abençoado, sempre empenhado em ajudar o semelhante, na atividade profissional, no lar, na organização assistencial, no Centro Espírita...

Mas o Céu tinha outros planos para ele. Confirmando seus indefiníveis sentimentos premonitórios, Joel retornou à Espiritualidade pouco depois, vitimado por um acidente de trânsito.

Foi um rude golpe para o movimento espírita local, que perdia sua liderança mais expressiva, e particularmente para Sara, que não conseguia aceitar a separação.

Como, sem seu apoio e carinho,enfrentar os desafios da existência, o cuidado dos filhos? E o Celsinho, como ajudá-lo de forma efetiva sem a proteção paterna?

Não se conformava. Afinal, havia tantos criminosos, tantos inconsequentes egoístas, cuja morte seria um benefício para a Humanidade, e logo seu marido, um homem digno e nobre, tão útil a tanta gente, deveria ter sua vida ceifada prematuramente?

Companheiros espíritas lembravam que o simples fato de Joel experimentar a premonição do próprio desencarne demonstrava que se tratava de um evento programado, que fazia parte de suas provações, mas Sara não se conformava. Mergulhada na depressão, recusava-se a retornar à normalidade, alimentando a perigosa idéia de que seria preferível morrer.

Até que , certa noite, na reunião mediúnica da qual participava, generoso benfeitor espiritual disse-lhe:
-Sara, sua inconformação é incompatível com seus conhecimentos. Você sabe que nada ocorre por acaso.

Voz entrecortada de soluços, em incontida angustia, a jovem argumentou: - Sei que existem problemas cármicos envolvendo situações dessa natureza, mas tenho aprendido que o bem que exercitamos hoje neutraliza o mal que praticamos ontem. Considerando que Joel era precioso instrumento da Espiritualidade na Terra, porque não lhe foi preservada a Vida? Não seria mais justo deixá-lo resgatar seus débitos com o esforço da Caridade, em que pontificava como devotado servidor de Cristo?

O mentor aguardou por alguns instantes, até que fossem menos abundantes as lágrimas, e redarguiu, sereno: - Seu argumento é ponderável, mas equivocado, porque desconhece a extensão dos compromissos de Joel. Seu desencarne, muito mais que o cumprimento da Justiça, foi um ato de Misericórdia que beneficiou não apenas ele, mas, sobretudo, você.

- Não estou ententendo...

- É fácil explicar. Segundo compromissos que ambos assumiram, Joel deveria sofrer derrame cerebral que o sujeitaria a uma vida vegetativa, prisioneiro de um corpo inerte, incomunicável. Você cuidaria dele por aproximadamente 10 anos...

O Espírito amigo fez uma pausa, deixando que a jovem viúva assimilasse o significado daquela revelação, e concluiu:
- Tendo em vista os méritos de seu marido, foi-lhe poupada a dolorosa experiência e ele retornou à Espiritualidade, de onde continua a ajudá-la nos encargos que lhe competem, conforme sua programação de vida. E pede-lhe que desate o "nó" da amargura, superando o pesadelo da transitória separação com o sonho de glorioso reencontro na imortalidade.

A partir desse dia Sara readquiriu a disposição de viver, enfrentando com serenidade e coragem seus compromissos, lembrando sempre que ela e o marido haviam recebido uma grande dádiva do Céu.